9. TECNOLOGIA E MEIO AMBIENTE 21.8.13

1. O MELHOR AMIGO DO AMBIENTE
2. TESOUROS NA LUA

1. O MELHOR AMIGO DO AMBIENTE
Ces treinados viram arma poderosa para a preservao de outras espcies, o combate ao trfico de produtos de origem animal e a limpeza das guas
Ana Carolina Nunes

Ser o melhor amigo do homem j no  reconhecimento suficiente para os ces. Com seu faro privilegiado e disposio sem fim para o trabalho, eles tm ajudado a salvar tartarugas na Austrlia, a prender traficantes de chifres na frica, a preservar populaes de orcas nos Estados Unidos e a levantar a dieta dos lobos-guars no Brasil. Alm disso, em troca de rao e gua fresca, colaboram com a preservao de ecossistemas nos quatro cantos do mundo. So os melhores amigos do ambiente.

PRECISO - Com seu faro, o co Tucker ajuda a localizar e preservar orcas no Oceano Pacfico

Nos Estados Unidos, um grupo de quatro ces acaba de se formar em um treinamento para detectar marfim de elefantes ou chifres de rinocerontes. Levam seus focinhos apurados para flagrar cargas suspeitas em portos, aeroportos e em servio de entregas. Nas horas vagas, os animais, que so treinados pelo Departamento Nacional de Agricultura, matam o tempo identificando frutas e plantas que tenham insetos ou doenas com potencial para prejudicar a agricultura no pas.

Eficientes na terra, os ces tambm mostram seu valor na gua. Para ajudar cientistas americanos, um co chamado Tucker veste o colete salva-vidas e embarca mar adentro na busca de fezes de orcas. Com esse auxlio inestimvel, fica bem mais fcil o acompanhamento de cardumes. Nas guas doces dos Grandes Lagos, na divisa dos Estados Unidos com o Canad, os ces farejadores tm sido monitores da limpeza. Eles identificam vazamento de esgoto e dejetos humanos na rea da praia e indicam a origem do material poluente.

VETERANO - A dedicao do pastor alemo Sable pelo meio ambiente comeou em 2007, quando ele tinha 18 meses. Foi o primeiro cachorro treinado por Scott Reynolds para farejar vazamentos de poluentes nas guas dos rios e lagos do Estado americano de Michigan

Grandes desenvolvedores das habilidades caninas, os americanos acabam exportando suas patas de obra. Com a ajuda dos ces do seu pas, a biloga Katherine Ayres, da Universidade de Washington, estudou por dois anos os mamferos do Parque Nacional das Emas, em Gois. A tarefa dos cachorros no era nada agradvel: farejar as fezes de animais como lobos-guars, pumas, jaguares, tamandus e tatus ao longo de 800 km. Atravs de exames de DNA do material encontrado pelos ces, a pesquisadora conseguiu identificar o nvel de hormnios, de estresse, presena de parasitas, quantidade de nutrientes e a sade reprodutiva.

Tambm h ces brasileiros cuidando do ambiente. Carlos Roberto Teixeira, professor da Faculdade de Medicina Veterinria da Unesp, lembra de cachorros que, no passado, eram usados para ajudar caadores de ona em Mato Grosso. Hoje, tm a mesma funo, porm com uma finalidade mais amigvel. Facilitam a captura para que pesquisadores possam monitorar os felinos. A raa usada  um mestio de um tipo caador americano com o fila brasileiro, diz.

OSSO - O co Viper percorre uma esteira como exerccio de treinamento para aprender a detectar produtos selvagens ilegais que podem estar sendo contrabandeados para os Estados Unidos. Principalmente marfim e chifre de rinoceronte

Morcegos e aves portugueses devem muito s pastoras alems Balita e Cassia. Elas foram treinadas para buscar e detectar animais mortos em parques elicos e linhas eltricas numa regio de serra ao norte de Lisboa. Com os dados coletados, foram criadas estratgias para proteger a fauna local. E hoje, as cachorras encontram bem menos cadveres. Todo mundo quer ser o melhor amigo dos ces.


2. TESOUROS NA LUA
Restos de espaonaves, roupa, joia e at bolas de golfe esto entre os objetos mais cobiados deixados em solo lunar. Traz-los de volta pode render muito dinheiro, mas coloca em risco nosso conhecimento sobre o satlite
Juliana Tiraboschi

Quando o astronauta Neil Armstrong tornou-se o primeiro homem a pisar na Lua, em 20 de julho de 1969, ele no apenas proporcionou um grande salto para a humanidade. Sua misso, a Apollo 11, tambm inaugurou o costume de abandonar objetos criados pelo homem no satlite. As diversas misses de explorao e observao levadas a cabo por Estados Unidos, Rssia, China, Japo e ndia, nas ltimas dcadas, foram deixando para trs mdulos de naves, sondas, equipamentos e objetos de uso pessoal dos astronautas e formando uma espcie de stio arqueolgico espacial em solo lunar (leia quadro).

BOLADA - Abaixo, o astronauta Alan Shepard d a primeira tacada de golfe na Lua; depois, ele posou ao lado da bandeira americana feita com material especial para suportar as condies do satlite (acima)

Alguns desses artefatos so extremamente importantes e teis at hoje, como os refletores de raios lasers instalados pelas misses Apollo 11, 14 e 15, em 1969 e 1971. Esses equipamentos refletem luz emitida da Terra e so usados para medir a distncia entre o planeta e a Lua e em estudos sobre gravidade, diz Arlin Crotts, professor de astronomia da Universidade de Columbia, nos EUA. Mas o lixo deixado no satlite tambm tem a sua importncia. Arquelogos podem construir todo um quadro a respeito de uma civilizao antiga com base nesses resduos, diz Jaymie Matthews, professor de astronomia da Universidade de British Columbia, no Canad. Alm disso, esses objetos podem ajudar a responder a algumas questes. Como os materiais aguentaram as condies na Lua? O que o acmulo de terra neles pode nos dizer sobre o ambiente local a longo prazo? Essas perguntas foram feitas por Bill Barry, historiador-chefe da Nasa, em entrevista  ISTO. Os restos de espaonaves e sondas antigas podem produzir conhecimento que nos ajudar a criar equipamentos espaciais que durem mais tempo, afirma.

O receio desses cientistas  que, com a intensificao de viagens para a Lua, o satlite vire uma terra de ningum. Com isso, experimentos como o dos refletores podem ser prejudicados, caso os equipamentos sejam manipulados ou mudados de lugar. E a intensificao temida pelos pesquisadores no est nada distante. A China planeja fazer um pouso no tripulado l at o final deste ano e enviar astronautas at 2015. Espero que os futuros exploradores tenham cuidado em preservar artefatos histricos, como o primeiro objeto feito pelo homem a pousar no satlite: a nave sovitica Luna 2, afirma Barry.

EFMERO - O astronauta Charles Duke deixou uma foto de sua famlia em solo lunar. Cientistas suspeitam que a radiao csmica tenha devorado a imagem

 preciso tambm cuidado na manipulao desses objetos caso sejam trazidos de volta  Terra para estudos. Em 1969, tripulantes da Apollo 12 coletaram equipamentos de dentro da sonda Surveyor 3, enviada  Lua dois anos antes. Ao chegar aqui, foi constatado que os artefatos estavam contaminados por bactrias do gnero Streptococcus. Acredita-se que a contaminao tenha ocorrido no laboratrio terrestre, onde foram analisados, diz Arlin Crotts.  

Neste momento tramita no Congresso americano um projeto de autoria da deputada Donna Edwards que prope que os locais de pouso das misses Apollo na Lua sejam transformados em Parques Histricos Nacionais sob jurisdio dos EUA. Mas a legalidade da ideia  colocada em xeque. Tecnicamente o projeto  inconsistente com o Tratado do Espao, afirma Crotts. O acordo foi firmado em 1967 entre Estados Unidos, Reino Unido e Unio Sovitica e j foi assinado por mais 102 naes. Ele estabelece que os corpos celestes so patrimnio da humanidade e no podem ser reivindicados por nenhum pas. Os EUA no podem estabelecer uma reserva na Lua unilateralmente, mas o pas poderia liderar um esforo frente s Naes Unidas para estabelecer uma proteo, diz Jaymie Matthews. 

Alm da importncia cientfica e histrica, alguns objetos que repousam na Lua despertam curiosidade, como as duas bolas de golfe arremessadas pelo astronauta Alan Shepard, tripulante da Apollo 14. Segundo o que ele disse na volta  Terra, a primeira delas caiu a 40 metros dele, em uma cratera chamada Javelin. A segunda teria ido mais longe: 180 metros, graas  baixa gravidade e  ausncia de ar, que poderia oferecer alguma resistncia. Se encontradas e trazidas de volta  Terra, essas bolas valeriam milhes. O temor dos cientistas  que esse tipo de raciocnio tome conta dos prximos exploradores da Lua. A esta altura, uma corrida do ouro pode colocar em risco tudo o que tornou possvel conhecer melhor o nosso satlite.

